No
Brasil, a Biblioteca Nacional está na fase inicial da definição dos metadados
de preservação. Em contrapartida, a Câmara Técnica de Documentos Eletrônicos do
Arquivo Nacional (CONARq) abriu para consulta pública no mês de abril de 2004 o
anteprojeto da Carta para a Preservação do Patrimônio Arquivístico Digital . O
objetivo do conteúdo da Carta é conscientizar as comunidades que possuem arquivos
de documentos digitais a adotar práticas padronizadas de preservação digital. A
carta coloca a necessidade de que sejam criadas políticas, estratégias e ações
sobre o tema.
Ela define o que é um documento arquivístico digital e propõe que todos os arquivos adotem algum sistema de gerenciamento arquivístico de documentos digitais. A proposta esteve baseada em estudos de projetos internacionais (InterPARES I e II - International Research on Permanent Authentic Records in Electronic Systems-, o projeto Pittsburgh Functional and Requirements for Evidence in Recording, o modelo de requisitos para a gestão de arquivos electrónicos – MoReq –, os requisitos usados pelo United States Department of Defense Records – DOD – e a metodologia DIRKS-Designing & Implementing a Recordkeeping Systems).
O documento é introdutório no sentido de colocar na pauta de discussão a preservação digital. Baseado na Carta da Unesco, reproduz quase na íntegra as sugestões que aquela instituição pede para os estados membros adotarem com respeito às medidas para salvaguardar o patrimônio cultural de cada país. O texto fica mais no sentido de recomendações para “melhores práticas” e chama para um estudo mais aprofundado das limitações da tecnologia digital. Não foi lembrada a necessidade de uma especificação maior dos tipos de informação a serem arquivados a longo prazo (dados científicos, arquivos pessoais etc.). A preservação digital não é apenas realizar atividades arquivísticas ou de desenvolvimento de coleções. Ela inclui o gerenciamento da aplicação de estratégias de preservação apropriadas para cada tipo de acervo.
O documento não menciona os custos de qualquer estratégia de preservação e acesso aos documentos digitais ao longo do tempo. Por serem os arquivos administrativos o foco de atenção da Carta, a questão da “autenticidade” aparece no centro das preocupações. Ao colocar o problema no nível das prioridades nacionais que precisam de regulamentação, a Carta não aponta para a inclusão da problemática da preservação a longo prazo no âmbito dos programas oficiais de apoio ao uso de software livre, de inovação tecnológica e de desenvolvimento tecnológico.
Não existem dúvidas de que novos esforços aparecerão para entender as técnicas e os padrões que devem ser aplicados no arquivamento da informação de relevância e a manutenção do seu acesso no futuro. O Arquivo Nacional é o fórum adequado para a interação entre as organizações que criam, armazenam e disseminam informação digital. São essas instituições que podem definir os requisitos indispensáveis para chegar ao estabelecimento de estratégias estruturais e operacionais de preservação digital, dentro de uma política nacional de informação a ser considerada em qualquer investimento de redes de informação eletrônica, privado ou público.
Preservação
digital no Brasil
As
preocupações a cerca da preservação digital no mundo tiveram sua primeira
expressividade no contexto mundial, partiu de um trabalho realizado no International
Concil on
Archives (ICA),
em 1970. O Brasil apesar de contar com representantes no Commitee on
Automation do ICA, na área de Arquivologia, os eventos da área na mesma
década pouco abordaram a temática e quando aconteceu, foi através de
profissionais de outras áreas.
A falta de
discussões na área é apontada no trabalho como sendo uma conseqüência da pouca
utilização dos recursos eletrônicos nos arquivos de então.
Pelo diagnóstico da Comissão
Especial de Preservação do Acervo Documental -CEPAD, iniciativa do Arquivo
Nacional do Brasil, foi possível saber que, na época, apenas 0,02% dos arquivos
existentes em Brasília usavam recursos informáticos. O diagnóstico restringiu-se
ao Distrito Federal, mas se pode inferir que a situação do restante do país não
seria muito diferente. (THOMAZ, 2006, p.116).
Somente
a partir dos anos 1990, começam a surgir publicações que abordavam o tema da
tecnologia da informação e dos documentos eletrônicos. Na mesma época, o
Governo Federal iniciou um processo crescente de informatização dos serviços
públicos, acompanhado pelas demais instâncias políticas. O fato mais
significativo no período, foi a instituição do programa Sociedade da Informação
no Brasil, através do Decreto no. 3.294 de 15 de dezembro de 1999 e, a criação
do Comitê Executivo do Governo Eletrônico - CEGE, como desdobramento do mesmo,
(através do Decreto s/n de 18 de outubro de 2000), que passou a atuar com base
no documento ‘Proposta de Política de Governo Eletrônico para o Poder Executivo
Federal’, publicado no mesmo ano. (THOMAZ, 2006). No mesmo ensejo, foi
publicado o ‘Livro Verde’, como uma proposta de inserir o Brasil no novo modelo
de Sociedade que, então, consolidava-se ao redor do mundo.
A
ação mais significativa no que concerne à problemática da Preservação de
Acervos Digitais a nível de Brasil foi a reformulação da Câmara Técnica de
Documentos Eletrônicos – CTDE, do Conselho Nacional de Arquivos - CONARQ,
criada em 1994 e em funcionamento a partir de 2002. Trata-se de um grupo de
trabalho multidisciplinar que tem por objetivo "[...] definir e apresentar
ao Conselho Nacional de Arquivos normas, diretrizes, procedimentos técnicos e
instrumentos legais sobre gestão arquivística e preservação dos documentos
digitais, em conformidade com os padrões nacionais e internacionais"
(CONARQ, 2006).
Os
trabalhos técnicos do CTDE estão organizados em dois grupos: Gestão e
Preservação. O primeiro grupo produziu um glossário de termos referente a
documentos eletrônicos, diversos artigos e apresentações e encontra-se em fase
final de elaboração uma especificação de requisitos funcionais para sistemas
eletrônicos de gestão arquivística de documentos convencionais e eletrônicos.
Já para o segundo, a câmara também desenvolveu diversos artigos e apresentações
e especialmente a Carta de preservação do patrimônio arquivístico digital
adaptada à realidade brasileira, em sintonia com o programa Memory of the
World da UNESCO. Essa carta foi aprovada pelo CONARQ em sua 34ª reunião
plenária, realizada no dia 6 de julho de 2004 e tem sido objeto de ampla
divulgação em simpósios, seminários, congressos e organizações governamentais e
privadas.
Os
trabalhos da Câmara atualmente estão direcionados para a elaboração de uma
especificação de metadados de preservação e uma resolução sobre recolhimento de
arquivos digitais. (THOMAZ, 2006).
Nos
dois tópicos que se seguem mencionaremos algumas das pesquisas brasileiras
sobre a preservação digital no âmbito das ciências documentais.
Pesquisas
brasileiras em Preservação Digital na Área de Ciência da Informação
Dentre
os esforços brasileiros cabe aqui citar também o Laboratório Líber –Laboratório
de Tecnologia da Informação da UFPE. De acordo com Lima (2005) o projeto do
laboratório “[...] ocupou-se desde cedo do interesse da ciência da Informação,
com a meta de avançar no campo das bibliotecas digitais além da fronteira
tradicional estabelecida pelo controle bibliográfico”, e que atualmente o
laboratório consolidou-se como espaço integrador de pesquisa e desenvolvimento
tecnológico, tomando como objeto de observação a hipermídia, investiga numa
perspectiva transdisciplinar, a instalação social do ciberespaço.
O
laboratório oferece bolsas de iniciação científica para alunos de graduação em
biblioteconomia, Informática e design. Hoje existem alguns desses alunos já
ingressos em programas de pós desenvolvendo estudos nas áreas de Preservação
Digital, Inteligência Artificial e Banco de Dados. (GALINDO, 2005).
Preservação
digital, saberes em confluência
Enquanto
iniciativas brasileiras no sentido de produzir saberes que auxiliem na gestão e
preservação dos documentos digitais, vale citar também os eventos estão
promovendo discussões a cerca do tema.
Podemos
citar o II Seminário Internacional de Arquivos de Tradição Ibérica, organizado
pelo Arquivo Nacional do Brasil, na cidade do Rio de Janeiro no período de 18 a
22 de novembro de 2002, inteiramente dedicado ao tema documentos arquivísticos
eletrônicos: gestão e preservação e o XIV Congresso Brasileiro de Arquivologia,
organizado pela Associação dos Arquivistas Brasileiro – AAB, também na cidade
do Rio de Janeiro, no período de 23 a 28 de abril de 2006, com grande ênfase na
infra-estrutura arquivística para preservação de documentos digitais.
A
Biblioteca Nacional organizou em 2003 um Curso Regional de Preservação Digital,
o qual foi patrocinado pela UNESCO. A idéia é de preparar a Biblioteca Nacional
para capacitar outras bibliotecas e arquivos a nível nacional para a
preservação dos acervos digitais. Os cursos contaram com a presença de
consultores professores internacionais um representante Francês da Unesco, o da
University of Califórnia, Library of Congress e ainda nacionais, entre
eles professores da PUC-RJ e ainda da Fundação biblioteca Nacional, entre
outros.
Bibliografia
MÁDERO ARELLANO,
M.A. Preservação de documentos digitais. Ci. Inf., Brasília, v. 33, n. 2, p.
15-27, maio/ago. 2004.
CUNHA,
J.A.; LIMA, M.G.. PRESERVAÇÃO DIGITAL: o estado da arte. VIII ENANCIB –
Encontro Nacional de Pesquisa em Ciência da Informação, 2007.
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